Acontece que essa resolveu ser uma semana dura, puxada. Desde quando as semanas com feriado passaram a ser piores? Desde quando nos pegamos tão atarefados que nada é capaz de pagar um dia útil a menos na semana. Nem a perspectiva do feriado em Recife. Quarta-feira à noite e tive um dia frustrante. Muitos chutes e poucos gols… Aula de piano perdida (pela enésima vez), horário no salão perdido, unhas lascadas, olheiras, cansaço (pra não dizer s… cheio) e aquela sensação de que nenhuma dessas renúncias valeu a pena…
Saio do trabalho ultra frustada. Vou caminhando em direção ao ponto de ônibus. Ah, sim: pra completar, é dia de rodízio. Parcialmente recuperada do assalto ja relatado nesse blog (recuperada de verdade estarei quando fizer algo pelas nossas crianças embrutecidas, mas não tenho tido tempo nem de fazer as unhas… não que elas sejam mais importantes que fazer algo pelas crianç… ok, retomando o foco:), dirijo-me ao ponto de ônibus. Mas a dor faz a criança carente que existe dentro de mim gritar bem alto. Ligo para Pedro e peço uma carona.
Pedro chega e pergunta a razão dos meus olhos cansados e marejados. Explico. Ele sai com a máxima do Chico “vai passar”. Falando em passar, convido-o a passar no supermercado metido a chique da Av. Cidade Jardim. Compramos 300G DE PICADINHO, PÃO DE NOZES, BABY CARROTS, UMA LATA DE CREME DE LEITE LIGHT e UMA GARRAFA DE VINHO TINTO SIMPLES (Pinot Noir – o tinto que conseguimos beber nesse calor). Vou comendo as baby carrots no caminho. Se você também tem ataques de voracidade quando se aborrece, anote a dica: vá de baby carrots. O ataque passa e não fica a culpa de assaltar uma barra gigante de chocolate.
Chegamos em casa. Na dispensa, pego UM PACOTE DE MACARRÃO INTEGRAL e o pacote de funghi sequi adquirido no Mercado Municipal. Comprei meio quilo outro dia e vou consumindo aos poucos. Custo-beneficio execelente. Pedro oferece ajuda. Começamos a cozinhar juntos. Meço mais ou menos um copo de requeijão de funghi, lavo bem em água corrente e deixo de molho. Refogo uma colher de alho picado em um pouco de azeite e manteiga. Logo mais junto o funghi hidratado e cozinho por dois minutos. Abro o vinho. Meio copo de requeijão de vinho vai para o funghi em cozimento. O resto vai enchendo as taças. Somo ao funghi outro meio copo de requeijão da água em que o deixei de molho. O resto da água vai para o ralo, junto com a mágoa do dia. Cozido o funghi até ficar macio, dá-lhe crème de leite light e o picadinho. Adiciono noz moscada a meu gosto e Pedro para que corrija o sal ao gosto dele.
Nesse meio tempo, escorro o macarrão integral cozido. Juntamos o molho. Saladinha pronta na mesa, macarrão muito delicioso e não calórico na panela. Convidamos o Dani para juntar-se a nós. Partilhamos a comida e a sensação do dever cumprido. Brindamos a possibilidade de cumprir o dever com mais competência e menos sofrimento no dia seguinte. Continuar perseguindo a vida vibrante…
Penso em colocar a receita no blog. Nada mal. Escrevo a receita e garanto mais umas semanas sem ser expulsa do pedaço que compartilho com o Pedro na net. Sento no sofá entre Dani e Pedro. Eles com os olhos fixos na TV (futebol, pra variar – elimatórias da Copa (já?) dessa vez…). Eu escrevendo uma receita-crônica, no blog, sentindo-me quase uma Rita Lobo.
Como chamará a receita? A Rita colocou no livro* uma receita de mudcake. Eu terminei um dia duro sem nem me jogar num monte calorias. Matei o mau humor em macarrão integral, crème de leite light e simplicidade. Será a minha mudpasta. Hummm… Nomezinho pedante…
Dani me provoca. Pedro me defende. Os dois discutem por brincadeira. Dou risada. João ainda vai chegar. Tenho certeza disso. Amanhã também vai chegar. E será melhor Dedico a receita aos meus meninos – João, Pedro, Dani. Minha família; minha república; minhas cobaias e assistentes na cozinha. Minha vida simples; minhas fortalezas; minha promessa de vida vibrante.
* Rita Lobo escreveu A Conversa Chegou na Cozinha – Crônicas e Receitas, editado pela Ediouro. Ganhei da Mari Macário e li num instante. Recomendo.